O Homem Sem Grana, de Mark Boyle

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“O dinheiro é parecido com o amor. Passamos a vida inteira perseguindo-o, mas poucos de nós compreendem a sua real natureza. Tudo começou, em muitos aspectos, como uma ideia fantástica.”

Iniciativas “um ano sem alguma coisa” não são exatamente uma novidade. Em cartaz na Bienal de São Paulo, estão os trabalhos de Tehching Hsieh, artista do Taiwan, que teve diversas experiências extremas de um ano (vivendo na rua, batendo ponto de hora em hora, amarrado a uma mulher). Tem também nos Estados Unidos a história de Paul Miller, o jornalista de tecnologia que está agora vivendo seu ano sem internet. Mas a atitude do irlandês Mark Boyle, parece, a princípio, muito mais ousada: a partir da Black Friday de 2008, ele iniciou um período de um ano sem dinheiro nenhum, para nada.

Os argumentos apresentados por Boyle fazem muito sentido: ao ter o dinheiro como o mediador de todas as relações, ele acaba tendo uma importância exacerbada na sociedade, e, menos óbvio e mais grave, cria um afastamento entre o homem e aquilo que ele produz e consome. É aquela coisa: se você tem um problema, mas puder despejar ali um pouco de dinheiro, está resolvido. Faz mal para o meio ambiente, claro, mas também para as relações humanas, afinal, na medida em que o dinheiro pode substituir qualquer diálogo, aprendizado ou camaradagem, a sensação de segurança e conforto passa a estar cada vez mais dependente de certa condição financeira. Ao viver sem dinheiro, o irlandês muda a relação: toda vez que ele tiver um problema, precisará encontrar uma maneira de resolver ele mesmo, ou então contando com a ajuda de amigos.

O questionamento é principalmente focado na questão da mediação do dinheiro em todas as relações e o tipo de dinâmica que isso cria em escala global – o trecho onde ele compara a fabricação de um chá caseiro à de um chá industrializado chega a ser revoltante – mas no fundo acaba por colocar em cheque a própria ideia de transação: uma pessoa só pode dar algo a outra, mesmo que não dinheiro, se estiver recebendo algo em troca. Boyle faz a propaganda da tal “corrente de bem”: fazendo favores livremente, quando você precisar, alguém também lhe fará um favor.

Ao final, tudo parece muito tentador: trabalhar apenas para si, ter intenso contato com a natureza, interagir bastante com pessoas gentis, e aprender uma série de técnicas e ofícios. Mesmo que fique claro que a experiência está longe de ser para todos, com certeza é uma leitura que faz pensar, e muito, na forma de vida que temos nas grandes cidades e em como ela poderia ser diferente com pequenas atitudes – se cada um pudesse gerar uma parte de sua energia, por exemplo.

Naturalmente, uma vida completamente auto-suficiente no meio urbano não é viável. Então Boyle, irlandês morador de Bristol, Inglaterra, consegue um espaço em uma fazenda de produtos orgânicos nos arredores da cidade para estacionar seu trailer e plantar alguns alimentos. Ali ele também monta sua estrutura de privada e chuveiro caseiros.

O resto de sua comida é conseguido, basicamente, com lojas cujos produtos passaram da validade, portanto, por lei, não podem ser vendidos, e em lixeiras de supermercados, que são enchidas de comida ainda consumível pelo mesmo motivo. A preparação da comida é em um fogão-foguete, feito com latas de tinta e tubos de PVC, tudo encontrado em qualquer lixo. Como Boyle é vegano e só come alimentos orgânicos, não foi necessário que ele aprendesse a matar coelhos ou ordenhar vacas. Um painel solar e uma bicicleta, comprados antes do ano sem dinheiro começar, completam a estrutura.

Apesar de um início duro, no auge do inverno, em pouco tempo Boyle já se sente confortável. Há espaço para relatos divertidos, como a viagem de carona até o norte da Irlanda para passar o Natal com a família, ou mesmo a passagem pelos tão famosos festivais de música que aparecem por toda parte no verão europeu. Ao longo do período, Boyle descobre também que não é exatamente um pioneiro na arte de viver sem dinheiro no mundo contemporâneo. Conta histórias de Heidemarie Schwermer, psicóloga alemã que já está nessa há mais de 16 anos, e de Daniel Suelo, que vive em uma caverna, nos Estados Unidos, há 12.

No final de 2009, quando seu ano sem dinheiro chegava ao final, Boyle acabou por decidir que sem dinheiro vive melhor, e resolveu não voltar ao sistema monetário. Sua trajetória gerou tanta repercussão na mídia que ele decidiu finalizar a jornada com uma festa gigantesca em que tudo é conseguido de graça: espaço, comida, cerveja, atrações musicais. Mais uma prova de que, quando se tem vontade e camaradagem, tudo é possível.

Como leitura, é bem agradável, e a narrativa fica num meio-termo entre o Guia Prático da Auto-Suficiência e Na Natureza Selvagem. Agora em novembro de 2012, Boyle deu seu próximo passo na marcha contra o dinheiro e lançou The Moneyless Manifesto, que pode ser lido gratuitamente aqui, em inglês. Ou no papel e em português, quando for lançado por aqui.

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